You are currently browsing the category archive for the 'ficção' category.
Diariamente, penso em diversos assuntos que poderiam ser posts bem legais pro blog, mas eles acabam transformando-se em páginas do meu diário-caderno personalizado com tirinhas do Calvin. Aqui vai um raro texto que escapou!
Hoje, quando estava indo ao centro da cidade resolver alguns assuntos chatos com a contabilidade da empresa, tomei o caminho de sempre, pela avenida principal. Com o trânsito, nunca presto realmente atenção nos edifícios e casas ao redor, mas hoje foi diferente: reconhecendo aquele trecho, cheio de casinhas, meus olhos procuraram pela pizzaria e… não encontraram. Um choque! A pizzaria sumiu! Em seu lugar, ruínas em demolição que em nada lembram seus tempos de ouro. Pode parecer bobo, o que, afinal, uma pizzaria tem de mais? Devem ter umas mil outras pela cidade. Mas não como aquela. Aquela era especial.
Quando eu era criança, minha família sempre reunia-se sábado a noite ali. Sempre, sem falta. Uma reunião animada de família italiana. Isso faz muita falta. Lá, minha mãe anunciou que eu teria um irmãozinho, foi naquela pizzaria que eu aprendi a comer outro sabor sem ser muzzarela. Foi lá também que me apaixonei pelo meu primo e que tomei o maior pé na bunda do mesmo cidadão. Além de milhares de lembranças, agora espalhadas num terreno sem memória.
Antes de começar a trabalhar na banca do meu pai, eu pensava que era o trabalho mais divertido do mundo, pelo menos pra um cara que gosta de ler. Muito tempo depois, já não acho tão divertido ficar aqui ao lado de jornais e revistas o dia todo. As notícias são sempre as mesmas… Quer dizer, as notícias eram sempre as mesmas, até aparecer a garota.
Ela dá uma olhada rápida nos jornais sempre que passa, sem reparar em mim. Faz isso todo dia, as sete da manhã e de novo ao meio-dia. Vai sozinha, mas volta com uma amiga, às vezes conversando animadamente. Numa dessas conversas descobri que ela estuda na faculdade no final da rua. Eu acho ela muito inteligente, pelo que vejo. Às vezes ela parece metida, mas hoje descobri que é só aparência mesmo.
Entrou na banca mais ou menos umas sete e dez, enquanto eu arrumava as balas e chicletes nos compartimentos perto do caixa. Fiquei sem respirar por um instante, ela é muito mais bela de perto do que eu pensava, com seu cabelo castanho avermelhado caindo pelo rosto. Então ela pegou a carteira e pediu quatro pacotes de figurinhas do Batman e um chocolate. Senti um calor enorme no pé do estômago!
_ E-ee-eu também faço o álbum do Batman.
_ É bem legal né?_ ela respondeu sorrindo – mais calor.
_ Se você quiser trocar figurinhas repetidas, conta comigo!
_ Beleza! Obrigada.
E, como eu sou otimista, diria que foi um bom começo. Porque quando ela passa, o mundo inteirinho se enche de graça – como naquela canção.
Acordou com uma agonia inexplicável no peito, uma eletricidade percorrendo seus braços. Alguns minutos sentado na cama e a solução veio: foi decidido até a área de serviço e pegou a vassoura, saindo de casa sem dar atenção a mulher que perguntava se ele não tomaria o café.
Quando em frente ao prédio onde morava, olhou ao redor e abençoou o outono: a calçada estava repleta de folhas. Pousando a vassoura no chão, começou a varrê-las, sentindo a eletricidade em seus braços fluindo e a agonia indo embora. Acabou de limpar a frente do prédio, resolveu varrer ali o prédio vizinho, e o outro, e o outro também. Um, dois, três, incontáveis montanhas de folhas secas organizadas como se estivessem em fila atrás dele.
A mulher gritou do portão: “Ficou doido, homem? Páre com isso!”. O porteiro do prédio deu risada: “Vai varrer o bairro todo?”. O homem achou uma boa idéia, dobrou a esquina e continuou varrendo. Deu a volta no quarteirão, com a mulher atrás dele tentando pará-lo e a vizinhança, que começava a sair de casa para o trabalho ou estudar, a olhar com desconfiança, dúvida, surpresa.
De volta ao local de partida, algumas folhas já estavam espalhadas novamente, mas ele estava livre. Passou a mão pela testa suada, deu um sorriso de satisfação e voltou pra casa.
As duas não se viam a quase um mês, e sentiam-se cheias de saudade pois eram melhores amigas. Então, Laís tomou a iniciativa, ligou, insistiu, escolheram uma data e se encontraram no café em frente ao museu, velho ponto de encontro da turma.
_ Era tão engraçado falar de brincadeira “ah, não posso, minha agenda está lotada”… Mas agora que é sério perdeu toda a graça! Tô quase jogando pela janela essa agenda!_ disse Anna dramaticamente.
Laís começou a rir. Sempre que ficava irritada, as bochechas de Anna ficavam tão vermelhas quanto seu cabelo, o que era considerado o maior charme por Marcelo. Falando nele…
_ E o Marcelo, como é que tá?
_ Ah, tá ótimo! Pelo menos da última vez que eu o vi, tava!_ Anna respondeu entre um gole e outro de capuccino.
_ Tem um feriado chegando, não tem? No começo do mês…
_ Já tá marcado no calendário! Engraçado: eu, que nunca fui muito de praia, agora passo quase todos os feriados lá, igualzinho a todo o povo dessa cidade que desce a serra encarando aquele mega engarrafamento…
_ É o que dá se apaixonar por caiçara!_ Laís riu e deu uma mordida no pão de queijo.
Por um momento as duas ficaram em silêncio, ambas coincidentemente pensando na história de Anna e Marcelo. A repórter agitada e o surfista calmo, a ruiva cobre e o loiro prateado.
_ Você não sabe o papinho que a Maya soltou pra mim no telefone esses dias!_ disse Anna.
_ Se ela ficou falando de novo aquela ladainha de como ela ainda ama o Vicente, por favor, não me conte!_ disse Laís involuntariamente fazendo uma careta.
_ Não, não foi isso… Ela me ligou pra dizer que é difícil manter um namoro a distância, como se eu já não soubesse disso! E também pra eu tomar cuidado, porque a essa altura eu posso ser a maior corna enquanto ele fica com todas as garotas lá na praia, entre outras coisas…
_ Pra que ela ficou te dizendo isso? Que horror… _ a careta de Laís foi ficando mais intensa_ Essa garota quer que você fique insegura igual ela é!
Anna apenas ficou em silêncio, pensando se fora mesmo uma boa idéia citar Maya numa conversa com Laís, mas agora já era meio tarde pra voltar atrás.
_ Eu não sei se é bem isso, acho que ela quis me ajudar, não sei…
_ Te ajudar como? Falando besteira pra fazer você ficar desconfiando do Marcelo? Eu duvido muito que ele se interesse por qualquer outra garota além de você!
_ Eu não sei, Laís… A distância muda as pessoas, ele pode muito bem…
_ A distância pode afetar muitos relacionamentos, Anna, mas não o seu com o Marcelo. Pensa bem, vocês são o casal mais cúmplice, mais companheiro, mesmo com essa serra separando vocês dois!
_ Uau! Até mais cúmplices e companheiros do que você e o Vicente?
_ Talvez!_ Laís sorriu e colocou a mão no ombro da amiga_ Não embarca na neura da Maya, viu? A distância pode ser usada a seu favor, e além do mais, pode ser vencida a qualquer momento, basta querer!
_ E nós duas aqui hoje somos um exemplo disso!_ disse Anna sorrindo também.
