Alguns dias, a cena tem se repetido: na esquina da minha rua, uma mulher fica sentada no meio-fio encarando os próprios pés ou com o olhar perdido no trânsito. Ela deve ter uns cincoenta anos, tem fortes traços indígenas, cabelo preto preso num coque e está sempre usando um vestido comprido preto com flores amarelas.
As vezes que passei por ela, segurando a vontade de fazer mil perguntas – maldita covardia! – percebi que não era a única a ter notado sua presença: a guarda que geralmente está ali pra controlar o trânsito na saída da escola infantil, também observava e parecia hesitar.
Hoje, enquanto eu estava passando, ouvi a guarda de trânsito fazer a pergunta que estava presa na minha garganta:
_ Senhora, poderia me dizer o que está fazendo sentada aqui?
Ela respondeu com ar místico:
_ É a dor. Dizem que todas as dores passam, mas é mentira! Tem dores que não passam, a gente que aprende a conviver com elas.
_ A senhora está com dor? Quer ir pra um hospital?_ a guarda disse.
Mas eu sabia que não era desse tipo de dor que a senhora no meio-fio estava falando…
Lembrei na hora da minha teoria do quarto dos fundos! Quem sabe amanhã eu não me sento com ela pra trocar algumas idéias…

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