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Por te tirar de minhas paredes, caí no chão. Cada pequena exclusão acaba tornando-se parte de mim indo embora também. Mas esse é o único jeito. Te expulsar milimetricamente…
As duas não se viam a quase um mês, e sentiam-se cheias de saudade pois eram melhores amigas. Então, Laís tomou a iniciativa, ligou, insistiu, escolheram uma data e se encontraram no café em frente ao museu, velho ponto de encontro da turma.
_ Era tão engraçado falar de brincadeira “ah, não posso, minha agenda está lotada”… Mas agora que é sério perdeu toda a graça! Tô quase jogando pela janela essa agenda!_ disse Anna dramaticamente.
Laís começou a rir. Sempre que ficava irritada, as bochechas de Anna ficavam tão vermelhas quanto seu cabelo, o que era considerado o maior charme por Marcelo. Falando nele…
_ E o Marcelo, como é que tá?
_ Ah, tá ótimo! Pelo menos da última vez que eu o vi, tava!_ Anna respondeu entre um gole e outro de capuccino.
_ Tem um feriado chegando, não tem? No começo do mês…
_ Já tá marcado no calendário! Engraçado: eu, que nunca fui muito de praia, agora passo quase todos os feriados lá, igualzinho a todo o povo dessa cidade que desce a serra encarando aquele mega engarrafamento…
_ É o que dá se apaixonar por caiçara!_ Laís riu e deu uma mordida no pão de queijo.
Por um momento as duas ficaram em silêncio, ambas coincidentemente pensando na história de Anna e Marcelo. A repórter agitada e o surfista calmo, a ruiva cobre e o loiro prateado.
_ Você não sabe o papinho que a Maya soltou pra mim no telefone esses dias!_ disse Anna.
_ Se ela ficou falando de novo aquela ladainha de como ela ainda ama o Vicente, por favor, não me conte!_ disse Laís involuntariamente fazendo uma careta.
_ Não, não foi isso… Ela me ligou pra dizer que é difícil manter um namoro a distância, como se eu já não soubesse disso! E também pra eu tomar cuidado, porque a essa altura eu posso ser a maior corna enquanto ele fica com todas as garotas lá na praia, entre outras coisas…
_ Pra que ela ficou te dizendo isso? Que horror… _ a careta de Laís foi ficando mais intensa_ Essa garota quer que você fique insegura igual ela é!
Anna apenas ficou em silêncio, pensando se fora mesmo uma boa idéia citar Maya numa conversa com Laís, mas agora já era meio tarde pra voltar atrás.
_ Eu não sei se é bem isso, acho que ela quis me ajudar, não sei…
_ Te ajudar como? Falando besteira pra fazer você ficar desconfiando do Marcelo? Eu duvido muito que ele se interesse por qualquer outra garota além de você!
_ Eu não sei, Laís… A distância muda as pessoas, ele pode muito bem…
_ A distância pode afetar muitos relacionamentos, Anna, mas não o seu com o Marcelo. Pensa bem, vocês são o casal mais cúmplice, mais companheiro, mesmo com essa serra separando vocês dois!
_ Uau! Até mais cúmplices e companheiros do que você e o Vicente?
_ Talvez!_ Laís sorriu e colocou a mão no ombro da amiga_ Não embarca na neura da Maya, viu? A distância pode ser usada a seu favor, e além do mais, pode ser vencida a qualquer momento, basta querer!
_ E nós duas aqui hoje somos um exemplo disso!_ disse Anna sorrindo também.
_ Será que sirvo mesmo pra ser escritora, mãe?
_ Eu tenho certeza disso! Você já nasceu praticamente com caneta e papel na mão…
_ E o fato de eu não conseguir terminar de escrever nenhuma das minhas histórias?
_ Você deveria escrever contos, coisas mais curtas. O que importa é a qualidade e não a frequência, querida, e isso serve pra quase tudo nessa vida!
Então ela sorriu para a folha de papel em branco diante dela, porque era exatamente o que necessitava.
Falar com alguém inanimado através de palavras não ditas: sempre ouvira dizer que escrever aliviava. Despejar palavras diretamente do coração para o papel, sem pensar ou escolher. Apenas soltar, dizer com tinta da caneta o que nunca diria na frente de alguém.
Depois, como quem livra-se de um peso enorme, amassa a folha em formato de bolinha e faz uma cesta de três pontos na lata de lixo.
